DERRADEIRA CLAREZA - No necrológio de um empresário lia-se: "A abertura da sua consciência rivalizava com a bondade do seu coração". O deslize em que incorreram os enlutados remanescentes na solene linguagem reservada para tais fins, na inadvertida confissão de que o bondoso desaparecido carecia de consciência, remete o velório direto para o campo da verdade. Quando se elogia num homem de idade avançada que tenha sido especialmente sereno, é de presumir que sua vida representou uma sequência de patifarias. Ele se desabilitou da aflição. A consciência aberta instala-se como generosidade, que tudo perdoa porque o compreende até bem demais. Instala-se um quiproquó entre a culpa própria e a dos outros, que se resolve em favor daquele que dele tirou o melhor partido. Ao cabo de uma vida tão longa já nem se consegue discernir quem fez mal a quem. Na concepção abstrata da injustiça universal soçobra toda responsabilidade concreta. O patife faz de conta que acaba de acontecer com ele: se soubesse, meu jovem, como é a vida. Aqueles, porém, que já na meia idade se destacam como especialmente bondosos amiúde são os que empenham uma nota promissória sobre essa serenidade. Quem não é mau não vive sereno, mas endurecido e impaciente de maneira privada, envergonhada. Carecendo de objetos apropriados, não consegue exprimir seu amor de outro modo do que no ódio aos inadequados, claro que nisso de novo se assemelhando ao que odeia. O burguês é tolerante, porém. Seu amor às pessoas tais como são provém do ódio ao homem verdadeiro.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Dado o
Último Trago
às
23:34
0
blá, blá, blás
quarta-feira, 18 de março de 2009
Tempo-Instante (trecho)
Tudo então lhe faria voltar? ao que há muito já não se lembrava...: até o gesto daquele homem com fumo de corda pendente nos lábios velhos e secos lábios.
De que adiantaria agora esperar e se lembrar? De quê? depois do que haveria de acontecer, serviria? De qualquer forma, poderia se imunizar de ataques que viessem de fora. O problema seria impedir o efeito de veneno que saísse de dentro. Para sempre teria que ser visto como alguém não mais normal do que outros quaisquer. Veria a parede sempre branca quando todos, nessa mesma parede, seriam capazes de ver cores e formas das mais variadas. É aquela menina que ninguém mais do que ele saberia ver. Como só ele soube ver as cores do vestido e o que além guardavam.
Passos lentos; tentava visualizar os desenhos e cores sombreadas que, sem querer, os relevos do asfalto criavam. Até que num momento, chocou-lhe o branco seguido de preto seguido de branco. Essa criação fantástica de mundo com cores não funcionara por muito tempo. Era aqui, então, que ele não sorrira o sorriso desejado por ambos e o qual tentava um esboço qualquer agora, já tão tarde.
Era aqui então que ele não sorrira o sorriso desejado por ambos e o qual tentava um esboço qualquer agora, já tão tarde.
Foi quando ergueu distraída a cabeça: num ínfimo, magro, pequeníssimo – não insignificante – espaço de tempo, o qual as linhas não conseguem descrever, porque tanto se alongam; viu. Até que num momento, chocou-lhe o branco seguido de preto seguido de branco. Passara um gato correndo que o fez erguer a cabeça, de medo porque quase tropeçou no gato, mas o fez no próprio chão. No gato que nem miou; só passou felino e com cheiro de rua; e viu. Passou o gato correndo que o fizera erguer a cabeça e olhar para um pano florido e daí perceber a dor no pé. E com a dor no pé, ergueu mais os olhos com medo e viu a menina com um balde plástico quebradiço que dança, e sobre a cabeça o brilho de auréola. E viu os olhos baixos, que não diziam nada. Nada. Ainda não era o vazio, mas eram olhos de nada. E com a dor no pé, ergueu mais os olhos com medo e viu a menina e nos lábios um sorriso. Fechou os olhos e entre olhá-la ou não, foi-se tempo que não viu e o farol dava passagem. E quase que correu para atravessar e voltou e ainda dava tempo que a menina ainda o olhava e esperava vida.
Pausara um mundo e não se dera conta de que agora se prenderia nele. E ficaria preso num tempo tão lento quanto é o tempo que leva um segundo para alcançar outro.
Era preciso voltar. Ficar seguro e só em casa. A menina ainda lhe lançou a rosa, amarela, que bateu as pétalas e seu braço, esbarrou o caule em sua perna e tombou-lhe sobre os pés. Aceitou.
Não fosse isso, ainda assim ia querer me jogar do alto de qualquer lugar escuro para uma cavidade clara e não sufocante. No aquecido de um silêncio em voz alta, em grito de sussurro, em espera de amor, de vida longa, de broto feijão em algodão. Fez-se amor que voa e cai, que voa para aquele que pegar primeiro que nem buquê de noiva triste quando no alto solta pétalas em aroma de flor de cemitério, que uma vez que se sente, percebe-se que todas as flores têm esse mesmo cheiro triste. Não é só o cravo, não. Nem só o crisântemo. É o girassol também, que é alegria de mentira, que é amarelo com muita força. E também as rosas. Mesmo que mui delicadas. As folhas sim é que cheiram a vida, mesmo depois de mortas. Elas não têm esse cheiro de pessoa morta guardada em caixa de madeira. Que é tão triste. Mas as rosas amarelas têm um segredo. Que não se pode contar nem adivinhar, porque é segredo. O mais bem guardado. Elas não têm cheiro de flor, e a cor não é de alegria falsa. Isso é o óbvio, mas não o desvendar de seu segredo. É só o óbvio, o previsível. E é por isso que eu não sei se quero ver rosas amarelas numa caixa, nem para mim. Nem aqui; vermelho. - Por que ela? Por que jogar? - Uma coisa assim poderia guardar ainda mais os segredos dela, ou pior, arrancar-lhes o mistério. A única que tem mesmo mistério. Isso não é palavreação. Penso nisso: a violeta a gente olha e sabe. Em todas elas, se a gente olha a gente sabe. Mesmo que não saiba explicar; o porquê às vezes é mesmo muito difícil, mas a amarela ninguém sabe. Sequer fica algo preso na garganta. Ela é, mas ninguém sabe, ninguém entende. A flor vermelha não é assim, ela grita e a gente ouve mas não conta, mas todo mundo sabe o que ela diz. A gente até se cansa. Mas a cor vermelha, só ela – a cor- também ninguém sabe o que ela quer dizer. É diferente da rosa amarela – esta não deixa nem dicas. Mas a cor vermelha faz pensar em tanto que acaba não permitindo ser descoberta, ser decifrada. Vermelho pode ser bom e pode ser perigo, mas quando, e não é só isso.
E agora: está lá a rosa amarela sobreposta ao vermelho e ele que não sabe o que dizer. Na cozinha que é toda branca, tão branca que não se deixa ver a sujeira que gruda nela. E ele ali, naquela cadeira de ferro e tinta branca, ao lado da mesa branca, os pés no chão vermelho, o corpo recostado à mesa e à cadeira, sem adivinhar o chão, a rosa, a cor.
Tem uma mão que invade. E agora fica numa caixa de presente um coração pulsante e se liberta. Escorre do peito a seiva; é isso que grita mudo e sufocante, cala os sentidos todos – não pari um filho mudo que sem nascer deixa para fora braço e sangue e chora no útero.
E faz parar seus pensamentos agora, qualquer um que associe à menina. A que nunca soube o que lhe significava. Porque não entendia. E nem tinha porque. Entende agora que é ela. É ela. Foi-se a vida num segundo. Não há pensamentos. Não há o que ser dito mais.
Dado o
Último Trago
às
00:23
1 blá, blá, blás
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Sinfonia de Blogs
Dado o
Último Trago
às
14:17
1 blá, blá, blás
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
...
Eu já
Pairam no ar rostos disformes, e do riso de menino, o ódio borbulhante que se desfaz em elogio. E de que é feito riso? E de que é feito o coro? E choro. E do abraço um aperto escapa e faz chama de aurora e bruma. E desconcerto porque é fora de lugar. Porque não faz sentido: mão jovem em rosto velho fugidio. Que tenta escapar e perdura, de repente, a dor de uma agressão que não se pretendia sofrer, de uma agressão sofrida porque não quis ser covarde, mas de como se humilha, agora que dura e dura. E ninguém sabe, mas aquela que viu, na rua, chorou a dor do outro e dividiu a humilhação, porque sofrer é se rebaixar, não virilidade; sequer a delicadeza viril.
Apressa porque é tarde. Já não há mais tempo para viver. Já não é mais tempo para viver.
E a gente esconde e faz que não faz parte disso. Eu sou melhor que o mundo. Eu sou belo e puro em mim. Eu tenho a verdade do mundo. A verdade do mundo é cruel. Eu sou belo. Eu quero viver. Ahg... Cansa. Cansa porque sustentar também dói. Porque ver e fazer de conta é limite. É se reconhecer limite.
Eu me fecho em flor amarga. Eu sou agora pólen alérgico, eu quero vê-los caídos, mortos. E quero ver um sorriso de felicidade da vida toda que cada um construiu com o suor de seus trabalhos. Não, não: com o suor de suas consciências. E só depois de tê-los matados todos, e todos com seus sorrisos de belos, sentir piedade, e pensar que eu que fui intransigente, que eu que fui amargo.
Quero que definhem.
Se eu falar você não escuta; Escuta: “doce o mar, perdeu no meu cantar”.
E arregimento bombas e tudo que puder ser explosivo e espalho em cada canto. E nasce daí uma luz quente e vibrante. E nos gritos da dor de cada um, eu me vingo da dor que cada um causou em outros, e que eu sofri junto, sentimental que sou. E flor, bela no desdobrar do fogo. Quero que gritem a dor daquele inferno católico que, se não existe em terra, farei existir.
Ah... Mas me daria tanto trabalho. E eu tenho preguiça.
E vocês ardem sozinhos, na beleza de cada um, ardem sozinhos, “cão farejador” cheirando o enxofre do outro.
E seu pudesse vomitar e se eu pudesse gritar e seu eu pudesse ir embora.
E se eu fosse para outro país. E daí.
Eu estou cansado.
E se com calma entrasse no mar e me afundasse, para fundo, e na agonia morresse de olhos abertos, que é para os peixes saberem quem fui e me mordessem pedacinhos. E tubarões me estraçalhassem com toda violência, como toda brutalidade, que deles é natural, que deles é forte e sincera.
E se eu fizesse um pacto com Deus e ele me deixasse pôr fim à minha vida? E se ele me deixasse, por fim, a minha vida? E se ele não deixasse e eu apelasse para o diabo?
Mas eu vou continuar, e eu vou ouvir, e me mostrar espantada e me fazer sorrir, e sorrir, e sorrir tanto, espalhando ao mundo o que é felicidade, e sorrir de gozar no mais íntimo, e tanto, e tanto que, como é de se esperar, vão pergunta por que rio tanto? E vão achar que é porque, mais do que por eu ser uma estúpida em busca de aceitação, e mais do que acharem que eu não vivi, porque é isso que acham, e isso é o que importa a eles, vão achar que é porque são de fato, geniais. E isso me faz rir. E a esse sorriso, se calam, e me chamam ingênua. Eu sou. Eu queria ser. Eu ainda tenho em mim a delicadeza. Eu ainda guardo em mim a delicadeza, e me guardo porque da pétala que me tiram dia a dia, ainda tenho um caule preso à terra e ainda vibro. Não: tremo.
Suspiro o amanhã, sem esperar.
Dado o
Último Trago
às
17:07
0
blá, blá, blás
Desabafo
Dado o
Último Trago
às
16:21
1 blá, blá, blás
sábado, 27 de setembro de 2008
Num restaurante
À minha frente: 83 kilos, mulher, pintas, bolor; à direita: homem, 100 kilos. Falemos de gente ordinária então...
O problema da gente ordinária não são os 83 kilos, mas a blusa imitando, nas costas, um espartilho. Porque, veja, passou uma mocinha de 48 kilos, mas com roupas que imitam as de uma prostituta. Este é um texto que se faz a duas mãos. Eu quis ver o que a moça de espartilho comia, mas o garçom já limpou a mesa. O que as pessoas comem diz muitos sobre elas. Acredite.
Inventamos um novo tipo de escrita, ordinários que somos. Literatura a campo. Não gostei do nome. Ainda não gostei do título do blog. Meu braço dói e prenuncia minha tendinite. Tendinite. Eu nunca pensei que teria tendinite.
Passo a escrever então. Diz-se para escrever e não pensar. Escrever e não pensar; é coisa de secretária. Que perfume doce!
Porque toda gordinha usa tomara-que-caia e perfume doce. E porque todo namorado de gordinha tem cara de Claude Van Dame analfabeto. E essa gordinha, a que está ao lado, tem cara de gordinha: boca de pudim, nariz com narinas abertas atrás de uma ponta de nariz. E pele caindo por cima da tomara que caia ou vazando nas tranças do espartilho. Claude Van Dame? Ah, sim... Os braços caidinhos, o cabelinho pro lado... legal! legal somos nós. Nós somos bem legais!
Não sei também porque raios toda gordinha tem unhas vermelhas. Deve ser a menstruação.
Agora eu vi. Vou descrever a família que está ao lado: além da gorda de tomara que caia, boca de pudim, unhas vermelhas
Dado o
Último Trago
às
02:13
0
blá, blá, blás
Mais que o merecido.
O convite para virar estátua no Madame Tussauds lhe chegou em boa hora. Teria agora a certeza de que, de alguma forma, ainda que estática, se eternizaria. Tornaria-se visível aos olhos de gente tão sem reconhecimento quanto ele. De que isso lhe valeria? Também não sabia. Mas sabia que esse era o momento mais apropriado para tornar-se estátua. Garantir ainda em vida a eternidade e poder desde já esperar seu fim e, só com ele, o reconhecimento que lhe era devido. Insistiu que o deixassem próximo a Shakespeare ou O. Wilde. Não. Não era tão grande e teria que se submeter a estar ao lado de celebridades menores, como ele o era: um artista do momento, com direito a algumas capas de revista ou colunas sobre sua rotina numa revista mais descolada. Sua obra não importava a ninguém. Santiago para João Moreira Salles: uma peça que decora com música uma mansão; um personagem para um filme; um motivo de remorso posterior. Quando morresse, lembrariam-se dele e fariam uma restauração na cera já derretida em sua homenagem. Enquanto fosse vivo, teria de se aceitar celebridade inexpressiva. Insuficiente; mas oportuno.
Dado o
Último Trago
às
02:08
0
blá, blá, blás
Resposta a uma pergunta
Resposta a uma pergunta: o que eu vejo? O que se perdeu. O vento agora é seco e não sopra mais. Tudo para e o relógio caminha insistentemente. Foi-se o cetim e a flor. Veio o lobo e soprou e carregou a nuvem boa. Ficam as mãos. De música que não toca, de toque que não sente. A vibração e o timbre que não se sabe se da música ou do toque. Da mão. Todos vêem isso? Que se perdeu. Que se dilui como maquiagem em água limpa. Então agora eu sei. Precisa é de paciência. Agora deixo que venha o sopro... E carrega e limpa e deixa os sonhos bons. É o amor, o sorriso e a flor. Acredita? Vem com suas mãos. Se eu disser não, não segue olhos com cores. Me toma de novo. Como se eu fosse tua; Não em vão. Tira de minha boca esse gosto do nada com algum remédio que me dê alegria: a tua. O desespero vem. E a voz de antes: “Respira”. Vejo a causa e o culpado. Eu. Mas quem impõe o medo com uma espada merece toda a isenção de culpa? Se sou fraca? Se o que mantém se afasta e se esvai por culpa minha que não sei cuidar. Lembra das sacolinhas de maçãs nos fins de tarde? Eu lembro. Dos sonhos e do pão? Eu lembro. Da janela de rede da música da noite da manhã da voz que eu sonhava antes de acordar e te ver se indo. Eu. Não será isso que restará por fim: as costas e a promessa da volta com o bom comportamento. Eu sou fruta azeda.
Dado o
Último Trago
às
02:04
0
blá, blá, blás
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Antonio Maria
Ninguém me ama
Ninguém me quer
Ninguém me chama
de Baudelaire
Dado o
Último Trago
às
12:36
0
blá, blá, blás
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Eu posso saber o que as pessoas olharam no google para chegarem até minha página. Entre outras pesquisas, estão coisas sem graça como "Texto brincadeira", "desenhos de namorados assustados" e "gorros". Gorros?! Enfim.
Mas o pior de tudo foi quem procurou pelo famoso verso do famoso Otto Lara Resende. Único grande poeta cujo soneto tem apenas um verso. Um dia, eu e meu namorado fomos convidados a participar de um sarau. Nada mais terrível do que um sarau. Típico de grupos de auto-ajuda que se encontram para ouvir palmas e recolocar seus egos nos devidos lugares.
Muito bem. Meu namorado é um tirador de sarro. Então, já que teríamos que contribuir com a produção artística do grande evento, resolvemos fazer um belo poema de amor. Lindo, lindo. Precisam ouvi-lo recitando, sobretudo o verso "Ah, negras são as asas do urubu." Sobretudo o "Ah". Nossa inspiração foi o soneto do Otto. Compusemos um poema parnasiano(o título o prova), decassílabos perfeitos e vocabulário consoante com a escola em questão. O tema, no entanto, romantissímo. (Um suave viva aos superlativos absolutos. Meramente porque são absolutos. Absolutíssimos.) Chama-se Xiloma, e pode ser lido aqui. Uma obra de arte, claro.
Imagino se esse cara for um desavisado e tiver tomado esse poema como aquele inexistente do Otto. E rio sozinha. Ah: a pesquisa no google era "E entrego o corpo lasso à fria cama." Lindo!
Dado o
Último Trago
às
00:14
0
blá, blá, blás