terça-feira, 19 de maio de 2009

DERRADEIRA CLAREZA - No necrológio de um empresário lia-se: "A abertura da sua consciência rivalizava com a bondade do seu coração". O deslize em que incorreram os enlutados remanescentes na solene linguagem reservada para tais fins, na inadvertida confissão de que o bondoso desaparecido carecia de consciência, remete o velório direto para o campo da verdade. Quando se elogia num homem de idade avançada que tenha sido especialmente sereno, é de presumir que sua vida representou uma sequência de patifarias. Ele se desabilitou da aflição. A consciência aberta instala-se como generosidade, que tudo perdoa porque o compreende até bem demais. Instala-se um quiproquó entre a culpa própria e a dos outros, que se resolve em favor daquele que dele tirou o melhor partido. Ao cabo de uma vida tão longa já nem se consegue discernir quem fez mal a quem. Na concepção abstrata da injustiça universal soçobra toda responsabilidade concreta. O patife faz de conta que acaba de acontecer com ele: se soubesse, meu jovem, como é a vida. Aqueles, porém, que já na meia idade se destacam como especialmente bondosos amiúde são os que empenham uma nota promissória sobre essa serenidade. Quem não é mau não vive sereno, mas endurecido e impaciente de maneira privada, envergonhada. Carecendo de objetos apropriados, não consegue exprimir seu amor de outro modo do que no ódio aos inadequados, claro que nisso de novo se assemelhando ao que odeia. O burguês é tolerante, porém. Seu amor às pessoas tais como são provém do ódio ao homem verdadeiro.


Adorno. T, Minina Moralia.





quarta-feira, 18 de março de 2009

Tempo-Instante (trecho)

Um pé: outro pé: um pé: outro pé: mais rápido: um pé: mais rápido: outro pé: mais rápido: outro pé, um. E o dedo sangrava todo aquele dia; doía tanto que nem tinha coragem de correr para mãe. Mas viu flores que se escondiam atrás de uma árvore. E, da dor, fez risada, tão alta e forte como era a dor que sentia. E com as flores saiu a menina e um som de sorriso aliviado. Num já, por susto ou por qualquer outra razão, enfureceu a expressão tanto, que a menina ficou tímida. Voltou para casa, lavou os pés no tanque que ficava de fora e, enquanto o fazia, gemeu baixinho.

Tudo então lhe faria voltar? ao que há muito já não se lembrava...: até o gesto daquele homem com fumo de corda pendente nos lábios velhos e secos lábios.
De que adiantaria agora esperar e se lembrar? De quê? depois do que haveria de acontecer, serviria? De qualquer forma, poderia se imunizar de ataques que viessem de fora. O problema seria impedir o efeito de veneno que saísse de dentro. Para sempre teria que ser visto como alguém não mais normal do que outros quaisquer. Veria a parede sempre branca quando todos, nessa mesma parede, seriam capazes de ver cores e formas das mais variadas. É aquela menina que ninguém mais do que ele saberia ver. Como só ele soube ver as cores do vestido e o que além guardavam.

Passos lentos; tentava visualizar os desenhos e cores sombreadas que, sem querer, os relevos do asfalto criavam. Até que num momento, chocou-lhe o branco seguido de preto seguido de branco. Essa criação fantástica de mundo com cores não funcionara por muito tempo. Era aqui, então, que ele não sorrira o sorriso desejado por ambos e o qual tentava um esboço qualquer agora, já tão tarde.

Era aqui então que ele não sorrira o sorriso desejado por ambos e o qual tentava um esboço qualquer agora, já tão tarde.

Foi quando ergueu distraída a cabeça: num ínfimo, magro, pequeníssimo – não insignificante – espaço de tempo, o qual as linhas não conseguem descrever, porque tanto se alongam; viu. Até que num momento, chocou-lhe o branco seguido de preto seguido de branco. Passara um gato correndo que o fez erguer a cabeça, de medo porque quase tropeçou no gato, mas o fez no próprio chão. No gato que nem miou; só passou felino e com cheiro de rua; e viu. Passou o gato correndo que o fizera erguer a cabeça e olhar para um pano florido e daí perceber a dor no pé. E com a dor no pé, ergueu mais os olhos com medo e viu a menina com um balde plástico quebradiço que dança, e sobre a cabeça o brilho de auréola. E viu os olhos baixos, que não diziam nada. Nada. Ainda não era o vazio, mas eram olhos de nada. E com a dor no pé, ergueu mais os olhos com medo e viu a menina e nos lábios um sorriso. Fechou os olhos e entre olhá-la ou não, foi-se tempo que não viu e o farol dava passagem. E quase que correu para atravessar e voltou e ainda dava tempo que a menina ainda o olhava e esperava vida.

Pausara um mundo e não se dera conta de que agora se prenderia nele. E ficaria preso num tempo tão lento quanto é o tempo que leva um segundo para alcançar outro.

Era preciso voltar. Ficar seguro e só em casa. A menina ainda lhe lançou a rosa, amarela, que bateu as pétalas e seu braço, esbarrou o caule em sua perna e tombou-lhe sobre os pés. Aceitou.
Não fosse isso, ainda assim ia querer me jogar do alto de qualquer lugar escuro para uma cavidade clara e não sufocante. No aquecido de um silêncio em voz alta, em grito de sussurro, em espera de amor, de vida longa, de broto feijão em algodão. Fez-se amor que voa e cai, que voa para aquele que pegar primeiro que nem buquê de noiva triste quando no alto solta pétalas em aroma de flor de cemitério, que uma vez que se sente, percebe-se que todas as flores têm esse mesmo cheiro triste. Não é só o cravo, não. Nem só o crisântemo. É o girassol também, que é alegria de mentira, que é amarelo com muita força. E também as rosas. Mesmo que mui delicadas. As folhas sim é que cheiram a vida, mesmo depois de mortas. Elas não têm esse cheiro de pessoa morta guardada em caixa de madeira. Que é tão triste. Mas as rosas amarelas têm um segredo. Que não se pode contar nem adivinhar, porque é segredo. O mais bem guardado. Elas não têm cheiro de flor, e a cor não é de alegria falsa. Isso é o óbvio, mas não o desvendar de seu segredo. É só o óbvio, o previsível. E é por isso que eu não sei se quero ver rosas amarelas numa caixa, nem para mim. Nem aqui; vermelho. - Por que ela? Por que jogar? - Uma coisa assim poderia guardar ainda mais os segredos dela, ou pior, arrancar-lhes o mistério. A única que tem mesmo mistério. Isso não é palavreação. Penso nisso: a violeta a gente olha e sabe. Em todas elas, se a gente olha a gente sabe. Mesmo que não saiba explicar; o porquê às vezes é mesmo muito difícil, mas a amarela ninguém sabe. Sequer fica algo preso na garganta. Ela é, mas ninguém sabe, ninguém entende. A flor vermelha não é assim, ela grita e a gente ouve mas não conta, mas todo mundo sabe o que ela diz. A gente até se cansa. Mas a cor vermelha, só ela – a cor- também ninguém sabe o que ela quer dizer. É diferente da rosa amarela – esta não deixa nem dicas. Mas a cor vermelha faz pensar em tanto que acaba não permitindo ser descoberta, ser decifrada. Vermelho pode ser bom e pode ser perigo, mas quando, e não é só isso.

E agora: está lá a rosa amarela sobreposta ao vermelho e ele que não sabe o que dizer. Na cozinha que é toda branca, tão branca que não se deixa ver a sujeira que gruda nela. E ele ali, naquela cadeira de ferro e tinta branca, ao lado da mesa branca, os pés no chão vermelho, o corpo recostado à mesa e à cadeira, sem adivinhar o chão, a rosa, a cor.

Tem uma mão que invade. E agora fica numa caixa de presente um coração pulsante e se liberta. Escorre do peito a seiva; é isso que grita mudo e sufocante, cala os sentidos todos – não pari um filho mudo que sem nascer deixa para fora braço e sangue e chora no útero.

E faz parar seus pensamentos agora, qualquer um que associe à menina. A que nunca soube o que lhe significava. Porque não entendia. E nem tinha porque. Entende agora que é ela. É ela. Foi-se a vida num segundo. Não há pensamentos. Não há o que ser dito mais.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sinfonia de Blogs

Música erudita gratuita ganha espaço na web com a difusão de páginas ambiciosas, temáticas e com discurso antipirataria
IRINEU FRANCO PERPETUO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Depois do YouTube, das rádios via web e das redes de compartilhamento peer-to-peer, agora a blogosfera também está sendo usada como meio de difusão gratuita de música erudita.
Blogueiros de todo o planeta estão compartilhando suas coleções de discos, colocando-as para download.
Não é preciso ser um expert para conseguir baixar os CDs -basta clicar no link para download, que remete a um servidor no qual os discos estão armazenados. A única dificuldade é que eles normalmente chegam em formato .rar, compactado. Para descompactá-los, é só baixar o 7-zip, um programa gratuito, desenvolvido como software livre, mas que roda em Windows, e que pode ser obtido em www.7-zip.org.
Um dos mais ambiciosos blogs nesta área se chama, sugestivamente, Libros Libres Música Libre (libroslibresmusicalibre.blogspot.com).
Gerenciado por um coletivo que reverencia a memória do educador mexicano Rubén Vizcaíno Valencia, o blog disponibiliza para download gratuito as obras completas de Bach e Beethoven, integrais sinfônicas de Mahler, Bruckner, Tchaikovski e Nielsen, a música de câmara de Brahms e todo o legado fonográfico da soprano Maria Callas, entre outras preciosidades.
Há blogs que se centram em áreas de interesse temático. O italiano Brainle de Champaigne (passacaille.blogspot.com), por exemplo, traz vasto acervo de música medieval, renascentista e barroca, enquanto o argentino Il Canto Sospeso (ilcantosospeso.blogspot.com) está centrado na música dos séculos 20 e 21.
No Brasil, vale especial menção PQP Bach (pqpbach.opensadorselvagem.org), um blog bem-humorado, com diversos colaboradores, textos sobre compositores e intérpretes e oferta bastante diversificada; e o Brazilian Concert Music (musicabrconcerto.blogspot.com), exclusivamente focado na música erudita de autores nacionais, levando ao ar muitos discos que não foram lançados comercialmente e até itens que jamais mereceram edição em CD.
"Caráter cultural"
Todos esses blogs dizem não promover a pirataria, pois não cobram pelo acesso aos discos. Com algumas variações, suas páginas de entrada costumam dizer mais ou menos a mesma coisa: que o caráter dos blogs é meramente cultural e de divulgação; e que, tendo gostado do que baixaram, os internautas devem sempre comprar os CDs originais, cuja qualidade de áudio é superior à dos downloads.
Blogs como PQP Bach e Music Is the Key (orchestralworks.blogspot.com) colocam, ao lado da opção para download gratuito, um link para a compra do CD na loja virtual Amazon (www.amazon.com). E a página de entrada do Brazilian Concert Music pede a quem se sentir ofendido ou prejudicado com o conteúdo de alguma postagem que avise por e-mail os administradores do blog, que se comprometem a tirá-la do ar.
Não é impossível que na origem de tal precaução esteja o destino do Sombarato, blog especializado em música popular brasileira, com um acervo superior a 2.000 títulos, que teve mais de milhões de acessos em um ano e meio, antes de ser tirado do ar, em setembro do ano passado, pelo Google, devido a ação judicial da gravadora Biscoito Fino.
A base jurídica para tirar o blog do ar foi o Digital Millennium Copyright Act (DMCA), aprovado em 1998, nos Estados Unidos. Entre outras medidas, o DMCA permite que detentores de direitos autorais solicitem aos provedores de serviços on-line que bloqueiem o acesso ou retirem de seus sistemas conteúdos que violem direitos autorais.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

...

E é tempo já de se cansar? De desistir?

Eu já

Pairam no ar rostos disformes, e do riso de menino, o ódio borbulhante que se desfaz em elogio. E de que é feito riso? E de que é feito o coro? E choro. E do abraço um aperto escapa e faz chama de aurora e bruma. E desconcerto porque é fora de lugar. Porque não faz sentido: mão jovem em rosto velho fugidio. Que tenta escapar e perdura, de repente, a dor de uma agressão que não se pretendia sofrer, de uma agressão sofrida porque não quis ser covarde, mas de como se humilha, agora que dura e dura. E ninguém sabe, mas aquela que viu, na rua, chorou a dor do outro e dividiu a humilhação, porque sofrer é se rebaixar, não virilidade; sequer a delicadeza viril.

Apressa porque é tarde. Já não há mais tempo para viver. Já não é mais tempo para viver.
Ocupado. Tudo muito cheio de gente.
As pessoas são cruéis.

E a gente esconde e faz que não faz parte disso. Eu sou melhor que o mundo. Eu sou belo e puro em mim. Eu tenho a verdade do mundo. A verdade do mundo é cruel. Eu sou belo. Eu quero viver. Ahg... Cansa. Cansa porque sustentar também dói. Porque ver e fazer de conta é limite. É se reconhecer limite.

Eu me fecho em flor amarga. Eu sou agora pólen alérgico, eu quero vê-los caídos, mortos. E quero ver um sorriso de felicidade da vida toda que cada um construiu com o suor de seus trabalhos. Não, não: com o suor de suas consciências. E só depois de tê-los matados todos, e todos com seus sorrisos de belos, sentir piedade, e pensar que eu que fui intransigente, que eu que fui amargo.

Quero que definhem.

Se eu falar você não escuta; Escuta: “doce o mar, perdeu no meu cantar”.

E arregimento bombas e tudo que puder ser explosivo e espalho em cada canto. E nasce daí uma luz quente e vibrante. E nos gritos da dor de cada um, eu me vingo da dor que cada um causou em outros, e que eu sofri junto, sentimental que sou. E flor, bela no desdobrar do fogo. Quero que gritem a dor daquele inferno católico que, se não existe em terra, farei existir.

Ah... Mas me daria tanto trabalho. E eu tenho preguiça.

E vocês ardem sozinhos, na beleza de cada um, ardem sozinhos, “cão farejador” cheirando o enxofre do outro.

E seu pudesse vomitar e se eu pudesse gritar e seu eu pudesse ir embora.
E se eu fosse para outro país. E daí.
Eu estou cansado.

E se com calma entrasse no mar e me afundasse, para fundo, e na agonia morresse de olhos abertos, que é para os peixes saberem quem fui e me mordessem pedacinhos. E tubarões me estraçalhassem com toda violência, como toda brutalidade, que deles é natural, que deles é forte e sincera.

E se eu fizesse um pacto com Deus e ele me deixasse pôr fim à minha vida? E se ele me deixasse, por fim, a minha vida? E se ele não deixasse e eu apelasse para o diabo?

Mas eu vou continuar, e eu vou ouvir, e me mostrar espantada e me fazer sorrir, e sorrir, e sorrir tanto, espalhando ao mundo o que é felicidade, e sorrir de gozar no mais íntimo, e tanto, e tanto que, como é de se esperar, vão pergunta por que rio tanto? E vão achar que é porque, mais do que por eu ser uma estúpida em busca de aceitação, e mais do que acharem que eu não vivi, porque é isso que acham, e isso é o que importa a eles, vão achar que é porque são de fato, geniais. E isso me faz rir. E a esse sorriso, se calam, e me chamam ingênua. Eu sou. Eu queria ser. Eu ainda tenho em mim a delicadeza. Eu ainda guardo em mim a delicadeza, e me guardo porque da pétala que me tiram dia a dia, ainda tenho um caule preso à terra e ainda vibro. Não: tremo.

Suspiro o amanhã, sem esperar.

Desabafo

Sou profesora desde 2005, quando comecei como voluntária na Educafro. Hoje leciono em dois cursinhos renomados e em um bom colégio.Talvez seja muito cedo para eu dar aulas, já que tenho muito a aprender. Mas sei que sempre terei mais a aprender. Ainda assim, dou aulas com um único objetivo: transformação. E essa transformação passa pela formação dos jovens - e da minha, claro. Nunca - NUNCA - um professor estará plenamente preparado para lecionar. Nunca, porque o que todos os bons professores fazem é buscar a Verdade. E ela não está em nosso alcance. É por isso que tantos param no meio do caminho e reproduzem aulas prontas, repetem idéias que já não significam mais nada para si próprio.

Ouço o tempo inteiro os "marxilas" -aqueles que carregam Marx nas axilas, mas nunca o lêem de fato - falarem mal do capitalismo à espera de uma revolta armada por parte do proletariado. Blá, blá. Já ouvi até que se a reforma social for feita dentro do capitalismo, é melhor deixar tudo como está. Minha posição? Eu acho o comunismo e o Marxismo lindos. Mas inviáveis. De que adianta pensar no comunismo quando ele simplesmente já não tem mais como existir. Eu sou comunista. Mas nesse mundo não é mais possível sê-lo. Então, que tal sairmos da semi-formação de que tanto fala Adorno? Que tal percebermos o quão manipulados fomos para lutar contra coisas que não temos forças e com instrumentos que não têm finalidade?Falam tanto em Marx e esquecem o principal caminho que ele deu: EDUCAÇÃO.

Parem de culpar a mídia, o sistema, o Roberto Marinho e tantos outros vilões. Parem de reproduzir incessantemente: "se cada um fizer um pouquinho...". Isso é ladainha (aquelas que se faz nas missas) do que vontade de transformação.

Se educação é a forma única de mudança, comecem por vocês mesmos. Não esperem o pouquinho dos outros, nem esperem que o mundo mude. NÃO MUDA! Mas educar-se permite pelo menos uma consciência (ainda não me atrevo a dizer consciência total, mas consciência) do papel que desempenhamos socialmente.

O problema é quando todos já se acham suficientemente sábios só porque foram capazes de se comover com a fome e com a miséria do mundo; só porque leram Marx e viram que o capitalismo é selvagem; só porque não são racistas. E daí? Isso é o mínimo.

Por que em todo sistema ditatorial, a primeira coisa a ser abolida é a literatura? Porque ler é muito perigoso. Perigoso porque ensina. Porque desperta. Porque acorda. mas estamos numa democracia, não é mesmo? E daí? Essa democracia foi o melhor modo de ditadura já implantado. O que está aí é culpa nossa. Bem feito para nós. Mudar? Como mudar se nós mesmos escolhemos. Como mudar o governo do povo. Estranho isso, não?

Daí a resignação. A minha resignação e meu cansaço. Dou aulas como quem sonha. Mas sei que o pesadelo não tem fim. Dou aulas e vejo o comportamento dos meus alunos frente ao conhecimento. O que importa são as notas e passar de ano. A culpa é de quem? Do sistema? E quem compõe o sistema? Quem compõe a democracia? Quem compõe a sociedade? Você, eu, todo mundo. E se desde sempre o mundo é esse, independente das várias formas de regime que existiram desde sempre, se desde sempre todas as mudanças só existiram para que as coisas se mantivessem iguais, isso é porque desde sempre o homem é homem. Com todos seus vícios e mesquinharias. Com toda sua insanidade disfarçada de razão coerente. Com toda sua autosuficiência dependente de culpar o outro.

Eduquem-se. E vejam que são os culpados. Como eu sou. Aliás, isso me faz sentir vergonha de toda minha ilusão com o que quer que seja. E dar aulas se torna motivo de vergonha. É uma pena.

Desculpem a desorganização. Imperdoável eu sei. Mas, por se tratar de um desabafo, eu...

sábado, 27 de setembro de 2008

Num restaurante

E como escrever agora? Falar de tufões ou de gente ordinária?
À minha frente: 83 kilos, mulher, pintas, bolor; à direita: homem, 100 kilos. Falemos de gente ordinária então...

O problema da gente ordinária não são os 83 kilos, mas a blusa imitando, nas costas, um espartilho. Porque, veja, passou uma mocinha de 48 kilos, mas com roupas que imitam as de uma prostituta. Este é um texto que se faz a duas mãos. Eu quis ver o que a moça de espartilho comia, mas o garçom já limpou a mesa. O que as pessoas comem diz muitos sobre elas. Acredite.
Inventamos um novo tipo de escrita, ordinários que somos. Literatura a campo. Não gostei do nome. Ainda não gostei do título do blog. Meu braço dói e prenuncia minha tendinite. Tendinite. Eu nunca pensei que teria tendinite.

Passo a escrever então. Diz-se para escrever e não pensar. Escrever e não pensar; é coisa de secretária. Que perfume doce!

Porque toda gordinha usa tomara-que-caia e perfume doce. E porque todo namorado de gordinha tem cara de Claude Van Dame analfabeto. E essa gordinha, a que está ao lado, tem cara de gordinha: boca de pudim, nariz com narinas abertas atrás de uma ponta de nariz. E pele caindo por cima da tomara que caia ou vazando nas tranças do espartilho. Claude Van Dame? Ah, sim... Os braços caidinhos, o cabelinho pro lado... legal! legal somos nós. Nós somos bem legais!
Não sei também porque raios toda gordinha tem unhas vermelhas. Deve ser a menstruação.
Agora eu vi. Vou descrever a família que está ao lado: além da gorda de tomara que caia, boca de pudim, unhas vermelhas

Mais que o merecido.

Só os loucos se tranqüilizam inteiramente com a consciência da finitude. Para se eternizar, tornara-se versátil no campo das artes. Mas sua literatura, sua música ou pintura não repercutiam nem nos corações menos calejados. E ele se dizia feito para dilacerar corações. Escrevia diariamente, em horários fixos, como determinara Flaubert. Fazia de sua arte um ofício de joalheiro. A boçalidade que se instalara nos leitores não lhes permitia vislumbrar a qualidade de seus enigmas literários. Queriam dele apenas sua imagem, não sua alma. Ao cair da tarde, esboçava suas pinturas: a aurora certamente contribuiria para seu entusiasmo. O sombrio dessa hora do dia permitia que a luz de suas telas revelasse sua paixão e a chegada da lua finalizava o tom de suas obras. Vivia o momento ideal para sua música à noite; executada sob o luar, lhe garantia a total introspecção de seu eu. Nada. Não obstante a indiferença do público, ainda suportava a algazarra dos vizinhos debatendo-se em queixas à sua obra, a que chamavam ruídos desagradáveis. Redundantes. Falta-lhes afeto. Existências nulas; não sentiam que sua afetação vinha das tripas e, portanto, não se identificavam com ela. Sua arte, todavia, deveria ser resistente à contemporaneidade, porque seria eternizada como o fora a de Stendhal. Ele prenunciava ser compreensível só em cem anos, assim como o francês.

O convite para virar estátua no Madame Tussauds lhe chegou em boa hora. Teria agora a certeza de que, de alguma forma, ainda que estática, se eternizaria. Tornaria-se visível aos olhos de gente tão sem reconhecimento quanto ele. De que isso lhe valeria? Também não sabia. Mas sabia que esse era o momento mais apropriado para tornar-se estátua. Garantir ainda em vida a eternidade e poder desde já esperar seu fim e, só com ele, o reconhecimento que lhe era devido. Insistiu que o deixassem próximo a Shakespeare ou O. Wilde. Não. Não era tão grande e teria que se submeter a estar ao lado de celebridades menores, como ele o era: um artista do momento, com direito a algumas capas de revista ou colunas sobre sua rotina numa revista mais descolada. Sua obra não importava a ninguém. Santiago para João Moreira Salles: uma peça que decora com música uma mansão; um personagem para um filme; um motivo de remorso posterior. Quando morresse, lembrariam-se dele e fariam uma restauração na cera já derretida em sua homenagem. Enquanto fosse vivo, teria de se aceitar celebridade inexpressiva. Insuficiente; mas oportuno.

Resposta a uma pergunta

Resposta a uma pergunta: o que eu vejo? O que se perdeu. O vento agora é seco e não sopra mais. Tudo para e o relógio caminha insistentemente. Foi-se o cetim e a flor. Veio o lobo e soprou e carregou a nuvem boa. Ficam as mãos. De música que não toca, de toque que não sente. A vibração e o timbre que não se sabe se da música ou do toque. Da mão. Todos vêem isso? Que se perdeu. Que se dilui como maquiagem em água limpa. Então agora eu sei. Precisa é de paciência. Agora deixo que venha o sopro... E carrega e limpa e deixa os sonhos bons. É o amor, o sorriso e a flor. Acredita? Vem com suas mãos. Se eu disser não, não segue olhos com cores. Me toma de novo. Como se eu fosse tua; Não em vão. Tira de minha boca esse gosto do nada com algum remédio que me dê alegria: a tua. O desespero vem. E a voz de antes: “Respira”. Vejo a causa e o culpado. Eu. Mas quem impõe o medo com uma espada merece toda a isenção de culpa? Se sou fraca? Se o que mantém se afasta e se esvai por culpa minha que não sei cuidar. Lembra das sacolinhas de maçãs nos fins de tarde? Eu lembro. Dos sonhos e do pão? Eu lembro. Da janela de rede da música da noite da manhã da voz que eu sonhava antes de acordar e te ver se indo. Eu. Não será isso que restará por fim: as costas e a promessa da volta com o bom comportamento. Eu sou fruta azeda.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Antonio Maria

Ninguém me ama
Ninguém me quer
Ninguém me chama
de Baudelaire

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Google

Eu posso saber o que as pessoas olharam no google para chegarem até minha página. Entre outras pesquisas, estão coisas sem graça como "Texto brincadeira", "desenhos de namorados assustados" e "gorros". Gorros?! Enfim.

Mas o pior de tudo foi quem procurou pelo famoso verso do famoso Otto Lara Resende. Único grande poeta cujo soneto tem apenas um verso. Um dia, eu e meu namorado fomos convidados a participar de um sarau. Nada mais terrível do que um sarau. Típico de grupos de auto-ajuda que se encontram para ouvir palmas e recolocar seus egos nos devidos lugares.
Muito bem. Meu namorado é um tirador de sarro. Então, já que teríamos que contribuir com a produção artística do grande evento, resolvemos fazer um belo poema de amor. Lindo, lindo. Precisam ouvi-lo recitando, sobretudo o verso "Ah, negras são as asas do urubu." Sobretudo o "Ah". Nossa inspiração foi o soneto do Otto. Compusemos um poema parnasiano(o título o prova), decassílabos perfeitos e vocabulário consoante com a escola em questão. O tema, no entanto, romantissímo. (Um suave viva aos superlativos absolutos. Meramente porque são absolutos. Absolutíssimos.) Chama-se Xiloma, e pode ser lido aqui. Uma obra de arte, claro.

Imagino se esse cara for um desavisado e tiver tomado esse poema como aquele inexistente do Otto. E rio sozinha. Ah: a pesquisa no google era "E entrego o corpo lasso à fria cama." Lindo!